"quem entesoura segredos culpados acaba inevitavelmente fascinado pelas aparências".
Estava tentando adiar escrever sobre esse livro porque, honestamente e sem querer parecer piegas, é o meu favorito até agora. Lionel Shriver definitivamente entrou para a minha lista de melhores escritores. Por essa razão, tenho um pouquinho de medo de deixar alguma coisa importante passar batido.
Afirmo sem medo de errar que "Precisamos falar sobre o Kevin" não é o tipo de livro que a maioria dos leitores gosta de ler porque é um livro de difícil leitura, se comparado com o que temos visto em abundância nas livrarias hoje em dia. Uma leitura que nos faz pensar e, o que mais me assustou a respeito, nos faz refletir o quanto daquilo tudo já foi verdade também para nós.
"Imagino que seja uma noção comum, essa, a de que já estamos tão avariados que a própria avaria, em sua totalidade, acaba nos deixando mais seguros".
"Não é que a felicidade fosse insípida. É que ela não dava uma boa narrativa. E uma das nossas melhores e maiores distrações, com a velhice, é recitar, não só para os outros, como também para nós mesmos, nossa própria história".
Uma das coisas que mais me chamou atenção nessa leitura, além da capacidade indiscutível de Schriver para conectar todas as narrativas, foi a sinceridade crua e doída que Eva Khatchadourian, mãe de Kevin, usa para "conversar" com Franklin, seu marido, a respeito de sua vida, da vida de seu filho, sua vida conjugal e até mesmo a situação do país.
"Há um autoengrandecimento no lamaçal dessa mea-culpa, uma certa vaidade. A culpa confere um poder espantoso. E simplifica tudo, não só para os espectadores e vítimas, mas, sobretudo, para os culpados. Ela impõe uma ordem à escória. A culpa ensina uma lição muito clara da qual outras pessoas talvez possam obter consolo: se ao menos ela não..., e com isso torna a tragédia evitável"
Admiro de uma forma quase que física a sinceridade rasgada. Mesmo aquela que te faz se encolher por ser tão crua e despida de enfeites. Essa característica no livro, nos faz pensar a respeito de quanto nos custa fazer esse tipo de análise tardiamente, como é o caso de Eva.
"talvez eu me sentisse mais propensa a aceitar essa noção tão secular de que alguém tem de ser responsabilizado sempre que algo ruim acontece se não houvesse uma eterna auréola de inculpabilidade em volta da cabeça dos que se imaginam eternamente cercados por agentes do mal.
Nesse livro você não irá encontrar nenhum estereótipo. Nem de pai, nem de mãe, nem de filhos e menos ainda de família. Essa é outra característica que nos deixa confusos e, de certa forma, desconcertados. Estamos habituados com os estereótipos. Estamos confortáveis com os estereótipos. Por essa razão, quando lemos as descrições e os relatos de Eva ao longo de suas cartas, ficamos sem saber exatamente o que fazer com todas aquelas informações. Os sentimentos que nos são despertados vão de antipatia à total compreensão enquanto a história se desenvolve e os detalhes são revelados de maneira crescente.
Não é uma história contada de forma cronológica. As cartas passeiam entre passado e presente em todo o tempo e isso demanda dos leitores uma atenção mais apurada. Além disso, não é raro termos que voltar em algum trecho passado para ter certeza de que aquilo "faz sentido".
"às vezes, quando você se observa muito de perto, quando faz uma análise severa dos próprios sentimentos, eles fogem, esquivam-se da captura".
O tema principal de todas as cartas discorre sobre a chacina que Kevin, seu filho de 16 anos, cometeu na escola em que estudava (matando sete colegas, uma professora e um servente), no entanto, na tentativa de compreender os motivos e os culpados, outros diversos temas são levantados, como por exemplo o fator que leva os casais a terem filhos. Essa grande e irrevogável decisão de trazer ao mundo outro ser humano pelo qual você irá se responsabilizar pelo resto de sua vida.
"não vejo como alguém pode dizer que ama crianças de forma genérica, assim como ninguém vai acreditar em quem diz que ama todas as pessoas, englobando aí Pol Pot, Don Rickles e o vizinho de cima, que faz dois mil polichinelos às três da manhã".
É possível, ainda, se surpreender com as conclusões duras e corretas a que Eva chega, quando descreve a maneira condescendente e relapsa com que Franklin trata do comportamento de Kevin e como seu casamento foi amplamente afetado de forma negativa ao longo dos anos, com palavras não ditas e pequenos problemas não resolvidos que tomaram proporções inimagináveis.
"Como acontece com as torradeiras e os carros pequenos, a gente só mexe na mecânica de um casamento para resgatá-lo e repô-lo em funcionamento; não adianta muito bisbilhotar para descobrir onde foi que os cabos se romperam, antes de jogar o equipamento no lixo".
Quanto mais escrevo sobre o livro, mais tenho vontade de escrever, por isso, vou me obrigar a seguir para a conclusão.
Todas as vezes que alguém me pede indicação de um livro, esse é um dos primeiros que me vem à mente. Ele é desconcertante, duro, agonizante (em diversas partes) e, devo dizer, nada parecido com aquele livro que você fecha e dá um suspiro. Confesso, inclusive, que, ao chegar no penúltimo capítulo, fechei-o e jurei para mim mesma que não o leria mais. E ponto. Claro que não durou e fui até o final, mas, quando terminei, em vez dos suspiros, um grito ficou apertado na minha garganta e, não fossem minhas amigas leitoras, especificamente a Lígia, teria surtado porque, quando terminamos, temos uma necessidade psicológica, física e emocional de falar sobre.
Finalmente, quando terminei, não tinha certeza se me sentia angustiada por causa de Eva, de Franklin, de Kevin ou por minha própria causa e, acreditem (leiam!), não tem nada mais assustador do que perceber isso.
"É um tanto irritante, mas só podemos saber como os outros são na desconcertante e permanente presença de nós mesmos".



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